
Manhã de primeiro de julho de 2006. Há exatamente um ano eu estava me preparando pra uma viagem que mudaria minha vida. À tarde eu voaria para Salvador. Não seria uma viagem de turismo, como milhares de pessoas fazem a cada ano. Viria para morar.
A data não havia sido escolhida à toa. No mesmo dia o Brasil enfrentaria a França pelas quartas-de-final da Copa do Mundo. Sempre quis estar no Pelourinho em um jogo da seleção brasileira.
Claro, eu tinha sido estimulado pela transmissão da Globo e pelos gritos de Galvão Bueno que sempre queria mostrar como estava o pelô depois da vitória do Brasil.
A selação brasileira acabou sendo derrotada pela França por um a zero . Fim de Copa para nós brasileiros. Mas o fim, muitas vezes, pode significar o começo. Foi assim comigo. Alfa e ômega se uniram pra saudar minha chegada a essa terra de simbolismos.
Simbolismos históricos também. A minha chegada foi exatamente um dia antes da data em que os baianos comemoram a
Independência da Bahia. Uma festa cívica que lembra a força guerreira desse povo que venho aprendendo a admirar neste tempo que estou aqui.
Foi amor à primeira vista. Ao contrário de Caetano Veloso que ao desembarcar em São Paulo não viu o seu rosto na cor acinzentada da capital paulista, eu me vi na luz do sol que fazia questão de brilhar com mais intensidade para realçar a beleza de Salvador. Ao chegar, percebi logo que a capital baiana era uma terra para ser admirada em todos os sentidos. Uma cidade sensorial.
Uma cidade em que visão, audição, tato, olfato e paladar se unem para tornar a vida mais feliz: E como o baiano faz questão de ser feliz. Depois de um ano eu ainda não consegui descobrir o segredo dessa simbiose: Salvador é uma cidade mais feliz por causa de seus moradores ou os moradores são mais felizes porque moram aqui? O fato é que o apelido da capital de um lugar chamado de estado da alegria não poderia ser outro senão felicidade.
No período em que estou aqui eu sorri e chorei, gostei e desgostei, quis e não quis, fui e não fui. Como em qualquer outro lugar em que eu vivesse, mas o que vai ficar como marca deste primeiro ano de soteropolitanidade é a minha transformação em baiano.
Hoje sou mais tranqüilo, tolerante. Se um problema não tem solução, eu relaxo, porque não tem solução, se ele tem solução eu relaxo porque tem solução. Mas aprendi também que tranqüilidade e tolerancia não são sinônimos de indolência, como erradamente tanta gente costuma pensar. De perto vi a garra e a força desse povo que transformou Salvador na terceira maior capital brasileira.
Fiquei mais sincrético também. Esta terra me fez devoto do Senhor do Bonfim, até fui batizado com água de cheiro, mas também me fez oferecer flores a Iemanjá. Foi aqui que aprendi a amar o carnaval tanto quanto o São João. E é aqui onde o verão é mais do que uma estação do ano, é uma instituição.
Por tudo isso, eu posso dizer que já sou um baiano. Mas sou baiano principalmente porque o meu coração pulsa no ritmo cadenciado dessa cidade. E quero, neste novo ano, poder curtir mais ainda minha baianidade nagô.